Eles estavam no quarto há três dias, fumando, bebendo, comendo, fazendo amor e estudando a palavra Carpe Diem para um artigo de uma revista literária.
Com o cachimbo holandês no canto dos lábios tentava explicar para ela o significado daquela frase tão declamada. Sueli por sua vez com o sabor dos vinhos nas alturas, achava engraçado tudo em sua volta.
— Gerson deixa eu ver se entendi, quer dizer que essa palavrinha foi escrita por um poeta há seculos antes de Cristo nascer?
— Palavrinha? —ele se joga em cima dela na cama — Essa palavra faz parte da ode de Horácio, você sabe o quer dizer isso! — “carpe diem
quam minimum credula postero”.
quam minimum credula postero”.
Ela ria muito de seus trejeitos como se tivesse imitando o professor Keating, do filme Sociedade dos Poetas Mortos.
Inconscientemente eles estavam levando a vida no pé da letra, assim como o poeta persuadia a Leucônoe, Gerson vibrava a cada significado da palavra.
Ambos nus, abraçados sobre seus corpos, fazia movimentos leves e ela entre sussurros dizia: — Quer dizer então há numerosas traduções possíveis: “colhe o dia” “desfruta o presente”, “vive este dia”, “aproveita o dia” ou “aproveita o momento”. — Isso meu amor é o que estamos fazendo, aproveitando o dia, o nosso futuro é incerto.
Continuaram noite adentro, se amando, lendo livros, ouvindo músicas que tinham de haver com as traduções sobre “carpe diem”.
No outro dia,ele chegou primeiro na redação da editora. Ficou uns quinze minutos a aguardando chegar. Ela passou direto por ele sem ao menos notar sua presença, e entregou os textos para o editor. Ele indignado diz: — Tá! Me ignorando por quê? Ela com um sorriso diz: — Você lembra da frase: “carpe diem quam minimum credula postero”. Ele retrucou: 'aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã'.
— Você entendeu o recado! — Ela saiu sem ao menos se despedir.
Murillo Kollek

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